Montados e raposas
Quatro quilómetros de terra batida separam o monte do asfalto. Penetra-se no Alentejo profundo, mas devagar, porque a enorme nuvem de pó se levanta e, as velocidades aqui só para pilotos de rally.
Enquanto se observam os sobreiros e azinheiras, duas raposas matreiras atravessam a estrada de repente. Vão em passo de corrida, e depois param a olhar para o carro. Ah, estamos mesmo no meio da natureza e, até nos esquecemos do pó que comemos.
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Chamusquinho
Finalmente chega-se à herdade. O nome, Chamusquinho, é sugestivo e assenta-lhe como uma luva. Pois para os que não sabem, chamusquinho é uma planície alagada. E não longe dali, repousa o braço da barragem de Montargil.
Curiosamente, o monte não é constituído apenas por uma mas sim por várias casas, transformadas em apartamentos bem equipados com dois e três quartos. Visto de fora, o conjunto é harmonioso e destaca-se a clássica traça de monte alentejano, com paredes caiadas de branco, com uma simples barra azul ao redor.
Dispostas em forma de L ao redor do jardim, as casas parecem orientar-se para a piscina. Faz sentido, pois quando o calor aperta a mais de 40º, lá vai banhoca. Depois, quase ao acaso, uma figueira, uma oliveira ou um canteiro que irrompem do nada, mas alegram o ambiente. De tal modo que Ralf, o velho pastor alemão que faz companhia ao dono, lá vai estragando umas flores de vez em quando. É sem querer, claro.
No alpendre, sentado nos bancos de madeira ou na cadeira de corda, deixa-se passar o tempo devagar, e aprecia-se a tranquilidade do sítio.
O dono, António Calheiros, adora cozinhar e já teve um restaurante em Lisboa. Depois, acabou por voltar para o Alentejo, recuperar a propriedade da família e começar com o turismo rural. Mas se ficar por mais de dois dias, ganhe a sua confiança e fala-lhe de culinária ou troque receitas. Pode ser que lhe ofereça algum petisco na sua própria casa. Puxe por ele e experimente a ver o quê que dá. Por vezes resulta, principalmente com os clientes ditos habitués, que se repetem no Chamusquinho.
Quando há muita gente, usa-se o sótão de uma das casas. O pé direito não é muito alto, mas as crianças adoram-no e disputam quem lá vai passar a noite. Por isso, se decidir levar os seus filhos, isole-os lá de noite, apenas para os ir buscar de manhã. De vez em quando, não faz mal nenhum descansar no sentido literal do termo.
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