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Berlengas, ilhas desconhecidas
Quem é que já foi às Berlengas? O nome todos conhecem, a história das gaivotas e que é difícil lá chegar, também. Mas, andar pelas falésias escarpadas, de frente para o vento, ou atravessar as grutas maravilhosas, quem é que já fez isso?
   
N'Dalo Rocha
   
Aqui, até um simples prego tem de vir do continente. Na ilha da Berlenga é tudo assim. Um colossal rochedo com 80 metros de altura que resiste teimosamente à erosão do tempo. Vista do barco que vem de Peniche, a paisagem árida não deixa ilusões. É mesmo agreste. As encostas são ventosas e escarpadas, a vegetação é escassa e os únicos animais que parecem existir são gaivotas.

Assim que o barco aporta, começa a descoberta de uma terra inóspita. Só se anda a pé e em duas horas conhece-se praticamente a ilha toda. O porto, na enseada do Caramusteiro, é o único local que dá um cheirinho a civilização, com quartos para alugar, um restaurante, duas esplanadas e uma dezena de casas de pescadores. O resto é terra e vento. A 300 metros dali, estão vários socalcos terraplenados sem casas e árvores chamados parque de campismo. Aliás, árvores propriamente ditas, não há nenhuma em toda a ilha. E lá em baixo, a única praia onde é seguro tomar banho, com uma água calma e quase translúcida.
   
Para além das caminhadas, é obrigatório descobrir a ilha de barco. Existem detalhes únicos, como rochas enormes com formas de animais. A rocha da baleia é uma delas, mesmo ao lado da Fortaleza São João Baptista. Vista de lado, parece um autêntico cachalote. Mais a sul, a tromba de elefante. E por aí for a, com a ajuda da imaginação.

Esculturas à parte, o melhor para conhecer são as grutas. Por debaixo da fortaleza, a gruta azul, que devido à orientação dos raios solares, reflecte a luz no fundo. E se puser a mão por dentro da água, fica azul.

Mais adiante, o Furado Grande, a gruta mais impressionante da Berlenga. Atravessa a ilha de um lado ao outro num túnel natural de 70 metros de comprimento por mais de 20 de altura. Custa acreditar que é obra da natureza, mas é. Uma vez transposta a enorme cavidade chega-se a uma enseada onde está a Cova do Sonho e o Furado Pequeno, onde o barco não entra. Só a pé, quando a maré está baixa ou de cayake, que podem ser alugados no Caramusteiro. E se alugar um, experimente também a gruta da Flandres. Entra por um lado e sai por outro. Descubra uma caverna única, onde há 300 anos marinheiros, soldados e piratas procuraram abrigo. Quem sabe não encontra um dobrão de ouro?

Na Berlenga existem dezenas de grutas para explorar e muitas delas submersas, só acessíveis pelo mergulho, que é outro dos encantos destas paragens.
   
A antiga fortaleza, construída no meio do mar, em cima de um rochedo, foi reconvertida em estalagem. É-se bem recebido, o preço é barato ainda que as condições sejam espartanas, do estilo tomar banho de jarrão.

O sítio é excelente para quem procura paz, especialmente durante a semana quando não há quase ninguém. À meia noite, a vista da janela do quarto para o mar é linda, principalmente numa noite de lua cheia. No horizonte vê-se o Cabo Carvoeiro, e depois Peniche. Temos a sensação de que sempre nos identificámos com aquele local remoto. Nem mesmo o guinchar de uma gaivota parece perturbar um momento assim.

Porém se uma noite de verão pode despertar sentimentos de melancolia, os invernos são impiedosos. As fortes correntes marinhas aceleradas pelos ventos ciclónicos criam vagas com mais de dez metros de altura que atiram toneladas de água para dentro do pátio. Estas varrem tudo o que apanham à frente. Nessas alturas, " o faroleiro telefona cá para baixo a perguntar se estamos vivos" conta Rui Gonçalves, responsável pela preservação do Forte. Nos piores dias, a velha ponte de pedra que liga a fortaleza à ilha fica submersa pelas águas do atlântico. Não há barco que consiga aportar e em períodos críticos e preciso gerir bem a despensa dos mantimentos.
   
Gaivotas

Ignorá-las é impossível. São aos milhares, vêm de todas as partes de Portugal e até da Galiza para nidificar no arquipélago.

Apoderaram-se da ilha e não abdicam. Aparentemente, toleram a presença humana, até alguém se aventurar caminhar fora dos carreiros marcados. Aí, reclamam a possessão territorial, passando do estado apático ao vigilante, para não dizer hostil.

O seu guinchar é irritante, e não há como fugir dele de manhã à noite, como se nos enviassem mensagens subliminares do estilo “big brother is watching you”, e não precisam de câmaras de TV. Revezam-se por turnos.

Mas o pior até nem é o ruído, mas aquilo que se imagina, principalmente quando a praia está cheia de gente. Os cientistas explicam que é um processo defensivo, para demonstrar que não gostam de nós. Tudo bem, nós também não gostamos delas, mas não nos resta nada mais que fugir das bombas que caiem do céu.

Com a sobrepopulação de gaivotas, parte da flora da ilha desapareceu, ou melhor, serviu de alimento para as enormes ninhadas. Se calhar Hitchcock inspirou-se nas Berlengas para realizar pássaros. Se calhar… Mas, aqui a história acaba lindamente porque a viagem vale a pena. E sempre são as nossas ilhas mais à mão de semear.
   
   
   
   
   
   
   
 
2001-07-11

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Deve seguir pela N114 até Peniche. Apanhe o barco Cabo Avelar Pessoa.

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Se enjoa, tome um vomidrine umas horas antes de entrar no barco. Se estiver sol, é preferível fazer a viagem no primeiro andar onde apanha o ar fresco. O arquipélago das Berlengas é constituído por:
Ilha Berlenga: É a maior ilha, a única habitável e que pode ser visitada. Tem um pequeno aglomerado de casas na enseada do Caramustão, na parte norte, a casa da Reserva Natural, um farol e o Forte São João Baptista.
Estelas: São pequenas ilhas rochosas e desertas ao norte da Berlenga.
Farilhões: Mais a Norte que as Estelas, também não se pode visitar, embora haja um minúsculo cais de desembarque que dá acesso a um farol de funcionamento automático. Contudo, é um bom local para o mergulho ou pesca desportiva. Nas Berlengas recomenda-se que faça a viagem de barco às grutas, para tal pergunte no Caramusteiro ou no Forte São João Baptista.

Para alugar o barco Cabo Avelar Pessoa
Contacto
:Viamar
Telefone: 262785646
Preço/ Pessoa: 15€ por viagem ida e volta no mesmo dia, 10€ crianças 10€ por viagem se for e voltar em dias diferentes, 6 € por criança.
Horário: Durante o mês de Junho, faz uma viagem por dia às Berlengas, com saída às 10:00h e chegada às 16:30h. Durante os meses de Julho e Agosto, faz duas viagens por dia às Berlengas, a primeira com saída às 09:30h e chegada às 16:30h e a segunda viagem, com saída às 11:30h e chegada às 18:30h.
Outro Contacto: Associação dos Amigos da Berlenga Telefone: 262785263.

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